pressionar o caderno no corpo
até as palavras saírem do meu peito e
adentrarem o papel
quero desmontar a língua
dissolver debaixo dela
tudo que eu sinto
fazer das palavras um feitiço
dominar o mito
desfazer o labirinto
deitar em cama feita
com um corpo vazio
certo de que não deixei nada
certo de que não há mais o que ser dito
sem dúvidas de que só resta o descanso
o silêncio absoluto
perpétuo, infinito
quando há o encontro das correntezas
contra uma pedra
fincada no chão
imóvel
definhando
descascando aos poucos
te olhei profundamente
como se desejasse
que os olhos falassem por mim
permaneci em silêncio
abri a janela
vi as promessas
se desmanchando no ar
me seguro em gestos pequenos
do sétimo andar de um prédio
na avenida brigadeiro luís antônio
basta um sopro
mas um gole d’água
basta um grito
mas um suspiro
são sempre coisas simples
que seguram
as asas de um pássaro
coladas ao corpo
no limiar do medo vivo a imensidão
por entre as dobras da escuridão
carrego o último beijo que dei
me escondo de uma aranha
assim como ela se esconde
de mim
do canto escuro da parede enxergo a vida
faço cama para a morte
deslizo pelo tecido orbicular da noite
me guio pelo som do seu fim
durante a madrugada tudo é breve
se tornando uma questão:
quem procura mais a vida
que o outro?
fecho os olhos
esperando
que eu desperte sendo
uma aranha
reflito no meu corpo torto
todo o reflexo de um tempo
outro
longe daqui
vi muitos planos serem feitos
na mão da mãe virei promessa e cuidado
na mão do pai virei besteira e estrago
um utensílio barato
guardei restos de pele
restos de água morna
gotas de sangue
um pouco de tudo cabe aqui
vi o menino nascer e crescer
vi casas, vi banheiros
choros na frente do espelho
vi angústia, pulsão de morte sobre veias desejando a morte
me tornei amuleto
vi um novo ser surgindo de um novo corte
com a sorte de um corte cego na vertical norte
vi se manter forte um laço entre o que ainda é presente posse e o que foi passado
descartado distante daqui
me tornei objeto sagrado
sem ponta faço furo no futuro traçado
saindo de um balcão de loja fadado ao fim
não esqueço o passado e permaneço presente em mim
um vão entre mim e uma cadeira vazia
giro a ponta do lápis por entre os dedos
puxo a gola pelas mãos
tento não sufocar
meu caderno combina com a calça
escrevo a lápis
mastigo qualquer certeza
regurgito uma outra coisa
visto meio sorriso
aceito a palavra penetrando
minha espinha circular

escrevo sobre um último suspiro
registro o espetáculo do fim
capturo os últimos gestos
a inocência e o seu desfecho
de mãos abertas, como quem segura sua própria infância pelas mãos
mas como se não reconhecesse o significado daquilo
sem cuidado, sem olhá-la nos olhos
redijo um amontoado de palavras
escolho as que melhor impactam, como um faz de conta que aconteceu
inalo o ar que a cena deixa, como se a olhasse com outra parte do corpo
ainda sinto a marca que ela deixou, histórias inteiras
deixando-me sem ar, com um nó entalado na garganta
como se quem partiu quisesse falar através de mim
sinto o cheiro do enxofre vindo da redação
o editorial esconde o ceifador, como quem mascara a verdade
sujando a matéria de sangue
mantenho-me consciente, mas também tenho as mãos sujas
o texto leva a minha assinatura
normalizo a barbárie
visto o meu melhor terno
uso a melhor caneta, no melhor pedaço de papel que encontrei
rabisco e censuro o profundo, rasgo certas camadas e deixo tudo em preto e branco
arranco os versos importantes da cena
do resto que sobra faço notícia
poesia com a morte